Archive for abril \30\UTC 2010


Diz pra gente Mauricio!!! Por que???

Porque eu não tinha tempo para desenhá-los.

Uma pergunta direta, uma explicação verdadeira e poderíamos terminar por aqui.

Mas ainda sobrariam algumas dúvidas que acho bom tentar esclarecer, em homenagem e respeito aos leitores.

Lá no começo, bem no comecinho da minha carreira de desenhista, os personagens vinham nascendo com grande dificuldade.

Eu ainda não dominava nem ritmo, nem traço. Os roteiros nasciam de sinopses trabalhosamente repetidas, re-ajeitadas, até me indicarem um caminho com começo, meio e fim.

Daí vinha a difícil tarefa de “vestir” o roteiro com desenhos onde o mais complicado era manter os personagens parecidos, quadrinho após quadrinho. O lápis funcionava bastante mas a borracha trabalhava muito mais. Só depois da definição dos traços é que chegava a hora igualmente trabalhosa, mas monótona, de usar a tinta nanquim nos personagens, cenários, letras, balões… e finalmente a limpeza, com muita borracha, de novo. E aqui ou ali, uma raspada de gilete num traço mal feito. O papel grosso, alemão, da marca “schöeller” agüentava muitas refações. Ainda bem.

E mais um detalhe a ser confessado aqui: eu usava caneta para arte-final com nanquim. Ao contrário dos meus “colegas” de outros traços, que conseguiam suas maravilhas com pincel.

Eu bem que tentei, mas o tipo de desenho que nascia do meu pincel não era o que eu gostava. Preferia o traço firme, forte, das penas com bico redondo. A tinta vinha com a energia e a velocidade que eu precisava.

Tempo era fator de sobrevivência, naquelas circunstâncias.

E se os primeiros personagens, de tanto serem refeitos, podiam se dar ao luxo de contar com maior número de detalhes, os que viriam depois nasciam já enxutos, quase que como desenhos pedagógicos. Mas era o que dava pra eu fazer. Não tinha auxiliares, trabalhava sozinho em roteiro, desenho e tinha que manter três tiras diárias na Folha.

Quem analisar a cronologia do “nascimento” dos personagens, vai verificar que o primogênito Franjinha veio com roupinhas bem transadas, sapatos, meias, calça pintada de preto e até cuidadosos “pingos” de nanquim para indicar a característica franja.

O Bidu, nascido na mesma época, também tinha seus detalhezinhos acurados, do mesmo modo que o Cebolinha, personagem secundário na série “Bidu e Franjinha”.

O Cebolinha até que tinha mais cabelos no começo. Mas daí o tempo começou a correr muito rápido, “comendo” cada vez mais histórias. Enquanto que os roteiros pediam novos personagens.

Então separei o Cebolinha numa série independente, cortei muitos dos seus cabelos e fui buscar o Cascão para lhe fazer companhia

E o pobre do Cascão, prejudicado pela minha falta de tempo, “nasceu” sem sapatos.

Não dava tempo de ficar desenhando sapatinho, meias, nada, na minha produção angustiante.

Não dava tempo de desenhar nem os dedinhos dos pés.

Os personagens secundários que iam chegando, “sofriam” do mesmo tratamento.

Foi assim com a Mônica e depois com a Magali.

E não dava para tirar os sapatos dos que já tinham.

O público já se acostumara com eles daquele jeito.

O Chico Bento também já havia nascido em outro jornal (Diário da Noite), ainda na época do detalhamento. Por isso não tem sapatos mas pelo menos tem aqueles dedões nos pés.

Com o passar do tempo, o sucesso dos personagens e a possibilidade de montar uma boa equipe de artistas para me auxiliar, veio a possibilidade de criar personagens mais “requintados” em detalhes.

Mas… como alterar figuras, traços, desenhos dos personagens já existentes que conquistaram o público mesmo sem sapatos?

Ficaram assim.

Não diz uma velha história que o homem feliz não tinha camisa?…

TEXTO RETIRADO DO SITE DA TURMA DA MONICA http://www.monica.com.br/mauricio/cronicas/cron97.htm

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Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

Carlos Drummond De Andrade

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Para evitar uma das suas maiores preocupações em vida,  a de que usassem seu nome indevidamente após sua morte, Chico Xavier criou uma senha, uma espécie de código secreto, que foi deixado com três pessoas próximas: o filho adotivo Eurípedes Higino, o médico Eurípedes Tahan Vieira e uma vizinha, Kátia Maria. A existência do código, que já criou desconfianças no meio, foi confirmada pelo filho.

Caso se comunique com os vivos por meio de um médium, Chico Xavier deve fazer constar a senha na mensagem. Reis garante que, das 200 cartas que já chegaram às suas mãos, psicografadas e  atribuídas a seu pai, nenhuma é mesmo dele.

Mas o código secreto é:      Queria ter psicografado tudo em um notebook!

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Homenagens devem ser feitas enquanto a pessoa se encontra viva! Chico Xavier por muitas vezes dizia que a conexão é diferente de lá pra cá e daqui pra lá.

Para a atriz Nair Belo, de seu filho:

Querida mamãe, meu pai, este é o momento do Mané criança e preciso pedir a bênção. Não sei muito bem como escrever aqui. A sala iluminada, muita gente, e o menino aqui, lembrando as provas do colégio. Se a memória não estiver funcionando corretamente, já sei que não consigo o que desejo. Acontece, porém, que tenho bons amigos, auxiliando-me a grafar esta carta.

Creiam vocês, a rapidez da escrita, o tipo da letra em grande parte pertencem a eles, à Vovó Maria e ao nosso amigo Dr. Trajano, mas o que escrevo, o que passo nas linhas caprichosas do lápis não é cola nem sopro de outras inteligências.

Mãezinha, é hora de chorar com vocês e afirmar que os sentimentos são meus mesmo, são de seu Manoel caladão, enfeitado de tantas idéias próprias e de tantas teimosias que fui até onde a rebeldia e a falta de comunicação me levaram.

Já sabemos de tudo. Papai foi mais forte, naquele dezembro que estourava com a nossa certeza de uns dias de recreio e bons papos com os nossos de Limeira, quando você, mamãe, fazia tantos planos diante de nós, para ver se descansava de suas lutas no trabalho, eis que o Mané não achou a pedra no caminho, mas encontrou um tronco forte que me pôs a cabeça incapaz de pensar.

Mãezinha e meu pai, fiz tudo para levantar o corpo, mas creio que o choque me alterou a circulação. Não estamos na hora de saber se rebentei alguma artéria importante ou se abri torneiras de sangue na cabeça intracrânio (vamos criar uma palavra que me ajude a recordar), mas o que é certo é que sou trazido até aqui para consolar-nos, uns aos outros.

Erguer-me não pude, falar muito menos, tive apenas a sensação de que caía num sono contra minha própria vontade. E creiam vocês dois que pensei em ambos do mesmo modo que pensei em Deus naqueles momentos em que me apagava devagar. Tanto desejo de sair, buscar algum telefone e contar que fora vitima de um acidente.

Mamãe, isso tudo eu pensei com tantas saudades de você. Naquela hora precisava de sua alegria e de sua palavra para suportar o tranco, mas sem saber rezar, em silêncio, pedi a Deus nos abençoasse e não deixasse você e meu pai acreditarem em suicídio. Às vezes, o Mané casmurro que eu era, falava em mundo difícil de agüentar e fazia alguma referência que pudesse dar a idéia de que, algum dia, ainda forçaria o portão de saída da Terra.

Mas estejam convencidos de que o carro deslizou sem que eu pudesse controlá-lo. A visão não estava claramente aberta para mim, porque sentia em torno uma névoa grossa e a manobra infeliz veio fatal e com tamanha violência que a idéia de suicídio não devia vir à baila.

Isso tudo, eu compreendi muito depois, porque naquele instante estava pensando em Natal e em nossa viagem a Limeira. Não sei se recordam que eu demonstrava uma certa indecisão entre acompanhar a família ou ficar em nossa casa. Mas isso tudo era só de mentirinha porque, no fundo, eu queria seguir com todos.

Mas eu que, às vezes, falava na morte, não sabia que ela me espreitava assim tão perto. Caí, sem querer, num sono violento no qual me pareceu estar num poço muito profundo, à espera de que me libertassem, conquanto não me fosse possível gritar por socorro. Por fim, sonhei, como um pesadelo, que me carregavam para o hospital e escutei, mamãe, o seu choro abafado. As vozes baixas no sonho eram ainda mais baixas, Senti o cheiro de remédios e escutei o ruído de instrumentos como se penetrando em meu cérebro. O sonho era demorado, um sonho em forma de pesadelo, daqueles que a gente quer acordar sem poder, mas depois veio um sono silencioso, como se tudo houvesse acabado, o mundo e eu.

Despertei não sei quando até hoje,  e me senti à vontade, pedindo pela presença de meu pai para conversar. Queria preparar com ele um modo de atenuar os sustos em casa e sempre com a idéia fixa na viagem do Natal. Foi quando minha avó Maria e outra a quem ela deu o nome de dona Maria Angélica de Vasconcelos, me animaram para o conhecimento da verdade. A realidade é que eu estava completamente boiando no caos. Não conhecia ninguém/

Elas me apresentaram a dois senhores, que se identificaram como sendo o Dr. Trajano de Barros e meu bisavô Souza e depois trouxeram um sacerdote amigo e paternal que me disse conhecer-nos a todos. Tive a idéia de que o grupo se compadecia de minha ignorância, mas o sacerdote encontrou um caminho para abordar-me:

‘Pois você, Manoel, nunca ouviu falar em casa de seu bisavô a história de Frei João, aquele que pretendia curar febres com o suco de limas?

Ele perguntou com um sorriso tão luminoso e tão amigo que meu espanto diminuiu. Se eu estava vendo o frei João, de Limeira, eu estava entre os mortos ou entre os vivos de outra espécie e perguntando à minha avó Maria sobre isso, com o olhar ela me respondeu: – “É verdade, meu filho, a casa de Irineu e de Nair agora é a nossa aqui para você. A morte não existe. Você apenas voltou aos seus. Tínhamos muitas saudades de você também”.

Aquilo me cortou o coração. E mamãe? Ela me informou que você e meu pai, com os irmãos, estavam com a bênção de Deus e que eu não devia rebelar-me contra o acontecido. Mamãe, não adiantaria qualquer resposta agressiva de minha parte…

Então chorei como se nunca mais fosse a situação em que a morte nos colocava diante daqueles que mais amamos. As emoções me agravaram a condição de doente e debati-me numa febre que perdurou muito tempo. Febre em que a via alucinada de dor, com meu pai procurando reconfortá-la. Quem disse que a morte liquida tudo estava muito enganado. Nas alucinações ouvia os seus pensamentos: “O que terá você feito, filho? Manoel, conte para sua mãe a verdade! Fale se você não mais nos quis!”

E eu respondia explicando o acidente, mesmo cansado e abatido como estava via meu pai sofrer calado para não aumentar a tristeza em casa e ouvia os irmãos falando em festas de Natal e Ano Novo, com algumas pontas de ironia de quem não compreende a presença do sofrimento, nas horas em que mais pensamos em Deus.

Mas, melhorando, comecei a temer por você, Mãezinha. Sua alegria parecia morta, seu coração dava a idéia de uma noite fria e sem estrelas. Você pensava se valeria a pena ficar na Terra sem seu Mané casmurro. E tanto amor extravazava de seu coração para o meu, embora as distâncias de Espaço que não existem para os que se amam que, o teimoso de sempre, inclinei-me para a idéia de Deus e comecei a pedir por sua alegria e por sua vida. Papai e os nossos não poderiam ficar sem você e você não poderia vir antes do momento marcado.

Pedi e pedi tanto, que um amigo apareceu com a vovó Maria e se identificou por Oduvaldo. Era o nosso amigo Oduvaldo Viana que me disse: – “Você pode estar sossegado. Nair é mais corajosa do que você pensa e nós vamos organizar a peça em que sempre desejei ver sua mãe mostrar o talento que lhe conheço”.

Depois de algum tempo, passei a vê-la no espelho de minha visão ocupada com o teatro e Oduvaldo com muitos amigos auxiliando-a. Mãezinha, eu sabia que isso ia dar certo, porque você foi sempre a rainha do trabalho. Serviço nunca lhe deu medo e foi com muitas lágrimas de alegria que fui levado para abraçá-la em sua volta ao palco de paz e alegria. O trabalho diminuiu nossas penas, papai ficou mais calmo ao vê-la mais serena e toda a família reanimou-se. Perdoem-me se me estendi tanto. Não tenho pretensões de sintetizar.

Isso é para os escritores que burilam as palavras e as frases, como os ourives fazem com as pedras preciosas. Aqui, mamãe, é só o coração do filho para tranqüilizá-los.

Estou bem. Estou em outras faixas e agora menos introvertido. Estou aprendendo aquela ciência em que você e meu pai sempre me quiseram bem formado, a ciência do diálogo. Estou aprendendo a sair de mim mesmo e a ouvir para responder certo. Penso que consegui o que desejava: sossegar meu pai e minha mãe, acerca do acidente de que fui vítima.

Papai está com excelentes estudos sobre a vida da alma. Quando você, mamãe puder fazer o mesmo, isso será muito bom. Eu teria chegado aqui mais escovado se tivesse alguma preparação sobre os meus novos assuntos.

Abraços na turma toda, começando por Aparecida e continuando nos irmãos. Diga, mamãe, a eles todos que estou melhor e com boas notas de renovação. Desejo a todos uma vida longa e muito feliz.

Obrigado, mamãe, por seus gestos de caridade pensando em mim. Esse agradecimento é extensivo ao meu caro papai. Minhas saudações aos seus e nossos companheiros de trabalho, especialmente aos que vieram com vocês até aqui. Um abração para todos de São Paulo e Limeira e vice-versa.

Agora, peço-lhes que me abençoem com alegria. Mamãe, creio que principalmente você e eu já nos cansamos de chorar. Coloque a sua alegria em nossa vida como sempre. Seja sempre a nossa Nair Belo, que nós seguíamos atentos em tudo de bom e belo que a sua arte produz.

Meu abraço aos dois, a você e a meu pai, com um beijo do filho cada vez mais reconhecido e sempre mais filho de vocês pelo coração e com todo o coração do Mané.

 

Manuel Francisco Neto

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10 anos sem o Snoopy por Charles Schulz


Charles Schulz foi um cartunista americano, criador da série Peanuts e dos personagens Charlie Brown e seu cachorro da raça beagle chamado Snoopy.

Charlie Brown é o próprio Shulz na infância, um menino cujo pai falava alemão em casa e tinha uma barbearia (assim como o pai de Charlie Brown). E que por ter entrado na escola um ano antes que o correto, sempre foi o menor da classe, o mais franzino, sofria rejeição dos colegas de classe e ia mal nos esportes.

Iniciou a série de desenhos do Snoopy (Peanuts) em 2 de outubro de 1950 e os desenhou por mais de 50 anos, até se aposentar em virtude de sua doença, em 14 de dezembro de 1999. Schulz faleceu em 12 de fevereiro de 2000, vitima de um ataque cardíaco, com 77 anos.

Sua última tira foi publicada um dia depois, 13 de fevereiro, uma tira em que se despedia de seus fãs e de seus personagens queridos.

Charles Schulz  -  Charlie Brown

“Caros amigos,

Eu tive a honra de desenhar Charlie Brown e seus amigos por quase 50 anos. Foi a realização de minha ambição de infância.

Infelizmente, eu não tenho mais a capacidade de manter o ritmo necessário para uma tirinha diária. A minha família não deseja que Peanuts seja continuado por mais ninguém, portanto eu estou anunciando a minha aposentadoria.

Eu sou muito agradecido por todos esses anos, pela lealdade de nossos editores e o apoio maravilhoso e amor expressado pelos fãs da tirinha.

Charlie Brown, Snoopy, Linus, Lucy… como eu poderia esquecê-los…”

Charles Schulz

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Esta não é uma leitura leve. No entanto, densidade não pode ser confundida com dramaticidade apelativa. Uchôa foi sobretudo um repórter – e dos melhores, como sempre em sua carreira. E isto está claramente refletido no texto: ora a narrativa mais emocional de quem está vivendo na pele as dificuldades de uma doença terminal, ora a limpidez na observação e o retrato fiel aprendido na grande escola de jornalismo da qual fez parte.

O que poucos, além da família e dos amigos mais próximos, têm conhecimento são das histórias deixadas pelo jornalista em sua última e corajosa grande reportagem.

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A VIDA por Marco Uchôa


 

 

O que a iminência da morte é capaz de provocar em uma pessoa jovem e promissora? No caso de Marco Uchôa: serenidade e uma nova (e mais profunda) compreensão dos caminhos da vida.

Em 2003, o jornalista Marco Uchôa descobriu-se portador de um agressivo tumor ósseo. Aos 34 anos, casado, pai de um filho e com uma carreira promissora – havia dez anos era repórter do Fantástico –, ele teve de parar. Lutou dois anos contra a doença. Suportou a quimioterapia, mais de 20 cirurgias, reaprendeu a andar, usou muletas. Quando morreu, aos 36 anos, deixou uma legião de amigos e um testemunho de rara coragem, na forma de um diário no qual registrou momentos de perplexidade, resgatou a importância do afeto dos que o cercavam e externou as coisas que queria que o filho soubesse. “É um diário feito com a alma de alguém que soube viver e morrer com idêntica dignidade”, diz Anna Costa, mulher do jornalista por 15 anos. Leia, a seguir, trechos condensados dessa longa despedida, selecionados por Anna, sua esposa.

 

Meu ex-marido, o repórter Marco Uchôa, batalhou por dois anos e dois meses contra o câncer, um tumor chamado osteossarcoma. Para driblar a monotonia e entender melhor o que se passava com ele, Marco escreveu um diário entre setembro de 2003 e novembro de 2005. É uma leitura emocionante e saudosa, de textos escritos com sabedoria, elegância e transparência. Um diário feito com a alma de alguém que soube viver e morrer com idêntica dignidade. Um homem por quem ainda tenho um grande carinho e enorme orgulho por ter convivido durante 15 anos.
Anna Costa

 

PRIMAVERA DE 2003

 

Toca o celular. É Ana Holanda, mais uma amiga de Anna, minha mulher. Em menos de cinco minutos, o programa de domingo estava definido. É sempre assim. Mulheres são rápidas. Ana Holanda e a irmã, Patrícia, passariam o dia conosco. Muitas risadas, causos… Minha perna esquerda continuava do mesmo jeito. Dores constantes a ponto de impedir certos movimentos, principalmente os de abertura. Quase quatro meses de remédios, fisioterapia, acupuntura e poucos sinais de melhora. A preocupação era maior pelo fato de eu não poder mais correr, atividade física intensa que havia caído nas minhas graças. Nos últimos meses, as corridas nas manhãs de domingo e os treinos no meio de semana haviam sido suspensos.

Quando as irmãs foram embora, decidimos descansar. Não existe descanso sem água, sem banho. Victor, meu filho de 6 anos, foi primeiro, com todos os brinquedos possíveis, para dentro da banheira de nossa suíte. Só saiu dali para ficar enrolado numa toalha no meio de minha cama, de olho grudado no Fantástico. Chegou a minha vez. Abri o chuveiro, coloquei o pé direito dentro da banheira, mas o esquerdo, aos poucos, escorregou no tapete do banheiro. Aquela típica abertura de perna provocou muita dor e um grito seco imediato, estridente. Anna veio correndo da cozinha. Ao me ver naquele estado, chorando de dor, intimou: “Vamos para o hospital agora. Chega de sentir dor.” Lembro a frase dela: “Não é possível você não melhorar depois de tantos remédios e todas essas sessões de fisioterapia e acupuntura. Tem alguma coisa errada…” Seguimos para o pronto-socorro de um hospital, o mais próximo de casa. Victor levou brinquedos e a animação típica de um garoto. Ficha feita. O relógio marcava 10 horas da noite em ponto. O Fantástico seguia, com um cenário em homenagem à primavera. Vinte minutos depois, fui recebido com um sorriso por um médico plantonista japonês que, de bate-pronto, sacou a frase: “Você não é aquele repórter?” – “Sim, sou.” Ele pediu um raio X e sugeriu uma injeção para aliviar a dor. Quando a imagem foi revelada, tudo mudou. Não esqueço o espanto do médico e sua cara de preocupado com o que via: o osso esquerdo do púbis esfarelado. Qualquer um percebia por aquela imagem que havia um problema sério. Chamei Anna e não consegui disfarçar o impacto da notícia.

O médico, gaguejando, falava em inflamação ou em tumor no osso. Quando essa palavra foi pronunciada, fiz questão de traduzir – “Câncer?” Ele preferiu pedir uma tomografia computadorizada. Os olhos de Anna, uma mulher forte e segura, estavam marejados. O pequeno Victor estava assustado. Fui obrigado a conter a emoção para não assustá-lo ainda mais. Fiquei sem chão por um tempo. Pensava como seria dali em diante. Como ficaria a minha Anna? E a educação do Victor, o meu bem maior? Minha vida, como seria? Naquela noite, Anna e eu ficamos grudados no meio da nossa enorme cama, como não fazíamos há tempos.

 

A QUIMIOTERAPIA

 

A clínica de oncologia fica bem em frente ao Parque do Ibirapuera. Olho para as pessoas correndo e meu coração fica apertado. Será que um dia vou poder voltar a me exercitar desse jeito? Anna e eu entramos com o pé direito na clínica. Afinal, ali eu receberia as medicações que iriam combater o tumor e me devolver a saúde aos poucos, a cada novo frasco de soro com as substâncias químicas.

No consultório, o doutor Sérgio Petrilli, oncologista e diretor do GRAC , abriu a bolsa de couro e sacou vários artigos da internet e textos de simpósios de que seu grupo participara. Saí de lá confiante de que havia feito uma excelente escolha. Era uma sexta-feira e o tratamento já tinha data certa para começar: segunda-feira, dia 29 de setembro de 2003…

OUTRO ACIDENTE

 

Outubro de 2003 – Minha mãe decidiu me acompanhar no tratamento. Fiquei feliz. Anna assumiu o volante. Ao fazer uma curva para a direita, olhei para trás e vi uma cena marcante. Minha mãe estava estranha. Passava mal. Fria, suada, com o rosto transformado. Anna não teve dúvidas. Algo de errado com a saúde da dona Sefisa, mulher forte, valente, que enfrentou inúmeras dificuldades para criar dois filhos na cidade grande. Tentei tranqüilizá-la, enquanto Anna se dirigia para o hospital mais próximo… Emergência. Minha mãe tivera um acidente vascular cerebral (AVC). Não acreditei no que vi. Era uma carga pesada demais para nós. Por outro lado, pensei, isso poderia ter acontecido na casa dela. Teria sido muito pior, pois não estaríamos por perto… Uma frase me perseguia: “Não é possível! Não é possível! Não é possível!” Era.

O AVC atingiu um trecho grande do cérebro. Ela foi submetida a uma cirurgia para diminuir a pressão craniana. Foi direto para a UTI e passou pela semiintensiva até chegar a um quarto. Foram 21 dias de internação. Nauseado por causa das sessões de quimioterapia que começavam a dominar meu corpo, consegui visitá-la apenas duas vezes. Fiquei assustado com o que vi. Uma mulher pálida, careca, às voltas com o fantasma das seqüelas provocadas pelo AVC. Mexia pouco o braço direito. Falava com dificuldades. Não andava. Ela precisaria de acompanhamento permanente dali em diante. Home care 24 horas, e na minha casa. Um time de enfermeiras para ficar com ela, ajudar no banho, dar os medicamentos… Foi duro acreditar que a rotina daquela casa sempre alegre e tranqüila havia se transformado tanto.

 

A CIRURGIA

 

11 de janeiro de 2004. Mãos ao lado da maca e uma faixa apertada no pulso. A idéia era impedir que o paciente tentasse retirar o incômodo tubo que lhe garantia a respiração. Um homem preso a fios, eletrodos e máquinas para indicar o seu real estado de saúde. Os números eram acompanhados com atenção por um exército de homens e mulheres vestidos com uniforme azul na sala central de controle. Enfermeiros, auxiliares, médicos da UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Por mais que tentasse, eu não conseguia me mexer. Efeito das 14 horas de anestesia para a cirurgia que extirpara o tumor e colocara uma prótese em minha bacia. Conseguia, no máximo, mover os olhos. Deitado, a única visão possível era o respiro do ar-condicionado. Pelo reflexo no alumínio, lá no alto do teto, acompanhava o entra-e-sai. Foram quase dois dias nesse cenário. Por mais que tentem humanizar a UTI , a passagem por ela sempre deixa marcas profundas. Nem sempre no corpo, mas quase sempre na memória.

A primeira cena no quarto 1001: Anna colocara um cartaz na varanda: “Parabéns! Mais uma etapa vencida.” Minha sogra, Venir, espalhara balões pelo quarto. Meu pequeno Victor trazia um desenho nas mãos – rabiscos coloridos sugeriam um passeio que fizemos à Praia do Espelho, na Bahia, um dos meus recantos preferidos. O quarto aos poucos foi humanizado. Numa mesa de canto, chocolates, flores, livros, CD s, porta-retratos. A idéia era trazer um pouco da minha casa para aquele lugar de parede bege e zero de charme.

 

OS AMIGOS REDESCOBERTOS

 

Sou obrigado a confessar: nunca fui muito preocupado com as amizades. Por vezes, Anna dizia. “Os meus amigos são seus amigos. Mas onde estão os seus, as pessoas conquistadas por você?” Silêncio. Na hora de quantificar os meus, faltavam nomes. A mão não enchia. Era como se tivesse sido reprovado por não ter sido capaz, durante todo esse tempo, de mobilizar pessoas. Elas estavam sempre em torno de Anna, por causa de sua dedicação, sinceridade, simpatia, amizade pura e simples. Eu, no caso, vinha no pacote. Hoje eu encaro a amizade como um troféu. Ganha quem se dedica, quem está atento, quem faz por merecer. A maior prova de amizade que tive foi na véspera de ser operado. Ela veio numa caixa grande e colorida. Por volta das 16 horas, Jennifer Skipp, Karina Dorigo e Márcia Dal Prete, todas amigas do Fantástico, entraram no quarto com ela. Ao abri-la, me deparei com a maior demonstração de carinho que já tive na vida. Bilhetes, recados, mensagens, desenhos feitos pelos meus amigos da TV. Profissionais de várias áreas com a mesma idéia: me dar um abraço de boa sorte antes da cirurgia. Chorei como nunca. Antes, eu não conseguia fazer uma lista dos amigos. Hoje falta papel para encher o nome de tantas pessoas que surgiram durante essa caminhada. Uma caminhada que é só minha, mas acompanhada por vários olhares. Sou eternamente grato a todos…

 

CORPO ESTRANHO

 

Quase um atleta. Era assim que me sentia antes do diagnóstico. Tinha uma vida agitada, horários confusos, irregulares, e o esporte combinava com tudo isso. Quando o médico fechou o diagnóstico de câncer, porém, o Marco Uchôa esportista não existia mais. Meus passos agora eram lentos e curtos. Eu fazia força e sentia dores para levantar a perna esquerda. Olhava pela janela do meu quarto, via aquele sol lindo e eu completamente limitado por causa da perna. Sem corrida, sem esportes… Só com dor. Hoje me olhei no espelho. Fiquei nu. Não me reconheci mais. Magro. Pernas e coxas finas. Mudei rápido, em poucos meses. A massa muscular vigorosa não havia deixado vestígio em meu corpo. É assim quando essa doença bate na sua porta. Você precisa estar preparado para muitas mudanças. A primeira delas é na cabeça. Depois, seguem pelo corpo, pela alma. Cada passo, cada contração muscular é motivo para comemorar.

Preto, liso, brilhante, volumoso e farto. Esse era o meu cabelo, para agonia de meus amigos calvos. Para manter o corte, precisava apará-lo a cada 15 dias. Segundo Júlio Crepaldi, meu cabeleireiro, um mestre na arte dos cortes e penteados, “meu cabelo crescia como grama”. Naquela manhã, ele estava curto, mas era necessário deixá-lo menor ainda. Na verdade, era preciso raspá-lo. Júlio não compreendeu no primeiro momento. Expliquei-lhe que a tal dor na perna era sinal de um tumor e que, com a quimioterapia, minha cabeleira perdera o sentido… Júlio não quis raspar, mas o deixou curtíssimo. Eu sabia que passaria pelo dia fatídico em que o ralo seria entupido pelos pequenos fios. Cai tudo mesmo. Não tem perdão.

 

CHUVA EM FAMÍLIA

 

Sexta-feira, abril de 2004. Anna e Victor estão com cara de chuva. Imagino ser por conta dessa batalha. Tantos dias de luta, idas e vindas ao hospital. A família toda se desgasta para segurar essa barra. Mas a doença também aproxima, e hoje sinto-me mais íntimo de todos. Um desafio como esse, às vezes, até faz chover dentro de nós. Vem aí um dilúvio.

Sentimento: aperto, receio, medo de voltar para o hospital.
Determinação: meditar e ter mais pensamentos positivos.
Vontade: abraçar meu filho, pegá-lo no colo.
Certeza: sairei vitorioso dessa luta. Faltam meses, mas vou saber esperar.
Necessidade: me alimentar melhor, comer mais e com maior freqüência para ficar mais forte.
Susto: quantidade de remédios aqui ao lado do criado mudo.
Desejo: voltar a ter autonomia.
Promessa: ser mais suave com tudo. Entender o tempo de cada um. Ser mais seguro e sereno ao mesmo tempo.
Amigos: Tê-los cada vez mais próximos.

 

 

 

DIA DOS PAIS

 

Outubro de 2005. Festa na escola do Victor. Animação, pizza… e eu de cadeira de rodas. Como o colégio é grande, foi a melhor solução. Abraços, beijos e fotos com a minha cria ao lado. Eu estava feliz. Depois da festinha, passei a tarde deitado. Senti dor. Apaguei com o potente Dimorf, remédio contra a dor à base de morfina. Acordei domingo com os pés formigando e uma sensação estranha de perda da força. Eu, que tinha esperança de voltar ao trabalho, não poderia imaginar que, naquele domingo, iniciaria mais uma batalha. Mais uma cirurgia…

Tirei as alianças, beijei minha Anna e pedi para avisar meus chefes na empresa. “Força, amor!” Saí do quarto com esta frase dela. Não suportava o vento gelado do corredor rumo ao centro cirúrgico. Cenas que aprendi a não gostar. Eu havia tido um recidiva do câncer, o tumor estava agora pressionando a vértebra T5 e eu corria risco de perder os movimentos das pernas. Acordei tranqüilo na UTI . Soube que tudo havia dado certo e que, aos poucos, recuperaria os movimentos. Que batalha!

A ÚLTIMA CARTA 

Domingo, 14 de novembro de 2005
Querido Victor,
Canário, por que canário? Ora, porque você é aquele garoto que chega da escola sujo, ensopado. Adoro esse cheirinho de moleque feliz. Victor, saiba que seu pai veio cumprir uma missão. Acho que chegou a hora de me despedir e virar uma estrela. Estarei sempre lá em cima no céu, pronto para te olhar, te ouvir e te apoiar em tudo. SEMPRE!
Sempre que se sentir aflito, indeciso, olhe para o alto. Outro jeito de me ver é se olhar no espelho. Estarei refletido nele. Você é uma parte de mim. Fruto do lindo amor meu e de sua mãe, a mulher que mais me ensinou nesta vida.
Conheci o amor verdadeiro com ela, conheci o mundo com ela. Anna é o meu brilhante! O amor de minha vida. Victor, torço para que você encontre uma Anna em sua vida. Quero, de verdade, que você seja feliz, não importa o jeito.
Lembro de você bagunçando em cima da cama. Morria de rir. Meu Tuco, Victor, Tutu, Canário: serei sempre seu, meu filho. Queria deixar mais e mais para você, mas acho que os valores mais importantes desta vida são: Seja correto com as pessoas. Faça com os outros o que gostaria que fizessem com você. Respeite sua mente, seus desejos, seu corpo. Acima de tudo, seja feliz, uma sensação ótima. Senti isso várias vezes ao lado de sua mãe.
Filho, esses olhos puxados são seus, são nossos. São a nossa marca. Em você ficaram lindos! Você é belo por dentro, Victor. Sentirá saudades, claro, mas quando esse sentimento bom aparecer, lembre-se das nossas brincadeiras, do “canário”, do “escatológico”.
Papai encontrou uma princesa na terra. Com ela aprendeu a viver. Fizemos você com amor. Não se esqueça um só segundo de que, de onde estiver, eu estarei te olhando. E te abraçando, meu moleque querido.
Seja um homem de bem, feliz!
Seu sempre pai, papito,
MARCO UCHÔA

 

DEPOIMENTO DE AMIGOS

Marco Uchôa gostava de se vestir de preto-e-branco, de dar presentes cheirosos e de denunciar problemas que ninguém antevia.

A última lembrança, literalmente a última lembrança, que tenho do Marco Uchôa fica numa das prateleiras da estante do escritório que ocupa um dos cômodos da minha casa. Ela fica entre uma latinha de biscoitos antiga, comprada num sebo em Paris, e uma miniatura de bicicleta. Trata-se de uma caixinha de madeira nobre com tampo de vidro e dividida em seis escaninhos. Foi presente que ganhei dele num de seus últimos natais. É nela que guardo os mais nobres chás, aqueles que o Uchôa tanto gostava: Darjeeling, Early Grey, Ceylon Breakfast, Jasmine Green e Blackcurrant da Twinings, além de alguns pacotinhos de chá marroquino da Lipton, tiragem limitada.

Marco Uchôa era gente fina. Gostava de chegar à redação carregado de sacolas de papel kraft e, aos pouquinhos, ia tirando presentinhos elegantes para os companheiros de trabalho. Sabonetes e incensos da L’Occitane, cadernos da Papel Principal, agendas com capa de couro. Fazia questão de trazer cada pacotinho embrulhado para presente. Não era Natal nem Ano Bom, não era aniversário de ninguém, muitas vezes não havia motivo algum para comemoração mas ele gostava de dar presentes, geralmente cheirosos, que perfumavam o ar da redação.

– Vamos lá! Vamos fazer! Vai dar certo!
Essas eram suas palavras de ordem assim que comunicado de uma missão, às vezes impossível: em plena sexta-feira, a partir do zero, colocar de pé uma boa matéria para domingo.

Foi assim durante os muitos anos em que estivemos juntos. Matérias foram feitas. Do desperdício de comida à morte trágica de um calouro de Medicina à beira de uma piscina. Da vida sofrida dos operários em Cubatão aos incendiários da cidade de Marília. Do inferno da Febem aos tiros de Pimenta Neves que mataram Sandra Gomide. Da doença misteriosa de um menino chamado Pedro ao show de Roberto Carlos comemorando a paz em Angola. A expressão “não vai dar” estava fora do seu Aurélio.

Bomba-relógio! A idéia de fazer uma série de reportagens mostrando que um barril de pólvora poderia explodir a qualquer momento foi dele.

– Vamos começar por Congonhas!

Era maio de 2001 e lá foi o Uchôa fazer um check-up de um dos aeroportos mais movimentados do País, para ele uma bomba-relógio. Contou com detalhes a jornada alucinante e estressante dos controladores de vôo, deixando bem claro que a qualquer momento uma grande tragédia poderia acontecer ali se não fossem tomadas as devidas providências.

Alguns anos depois, deu no que deu.

No mês seguinte, pegou um avião para Manaus. Queria mostrar que aquelas embarcações que saíam do porto da capital do Amazonas, muitas delas clandestinas, também eram bombas- relógio. Aqueles barcos caindo aos pedaços, transbordando passageiros e cargas, estavam prestes a naufragar, provocando uma grande tragédia. Alguns anos depois, deu no que deu.

Marco Uchôa era um repórter com garra e um homem com estilo. Vaidoso, vestia-se quase sempre de preto-e-branco. Só cortava os cabelos espetados no Júlio do Galeria. Os sapatos estavam sempre polidos, até mesmo quando voltava de uma reportagem em que engolia a poeira da periferia. A última vez que entrou na minha sala estava assim: calça preta, camisa branca, cabelos aparados, sapatos engraxados. Não viera discutir uma pauta e sim anunciar que iria começar uma luta contra uma doença cruel.

Uchôa parecia ter pela frente o maior desafio de sua vida, a pauta mais difícil de ser cumprida, mas a coragem era a de sempre. Tinha pela frente uma operação arriscada, dolorosa, mas não desanimou.

– Vamos lá! Vamos fazer! Vai dar certo!

Dali, ele saiu e mergulhou direto no mundo dos hospitais, para passar a viver em camas brancas, a conviver com homens de branco, tubos de ensaio, raios X, exames de sangue, caixas de antibióticos e analgésicos. Só voltou muitos meses depois, com um par de muletas, mas ainda animado. Uchôa trazia na cabeça pelo menos uma dúzia de idéias. Acreditando que a cura estava por vir, queria começar logo a trabalhar. Como não podia sair correndo atrás da notícia, apresentou a proposta de fazer uma série de grandes entrevistas com brasileiros ilustres. A lista era longa e lembro-me bem de alguns nomes: Oscar Niemeyer, dona Canô, Dercy Gonçalves, Jamelão, Zélia Gattai, Dorival Caymmi. Quando vi que todos caminhavam para os 100 anos, Uchôa explicou:

– São pessoas que têm poucos anos de vida pela frente e muita coisa pra contar.

Uchôa agora corria contra o tempo. Combinamos que a primeira entrevista seria com dona Canô. Saiu animado, sonhando em pegar o primeiro avião rumo a Santo Amaro da Purificação. Passei para ele um exemplar da revista Idéia com uma entrevista brilhante que a mãe dos Veloso acabara de dar ao repórter Marcos Augusto Ferreira. Ele leu, me devolveu a revista e soltou o seu último bordão:

– Vamos lá! Vamos fazer! Vai dar certo!

Pedi a ele uma sugestão de nome para a série de entrevistas que começaria a fazer, e em poucos minutos ele me mandou um e-mail.

– Que tal “O tempo não pára”?

POR MÁRCIA DAL PRETE

Marco, desculpe, mas não estou pronta. Já repassei minhas anotações, fiz os últimos telefonemas, revi suas reportagens, mas ainda não peguei o tom. Preciso de um cigarro. Ainda não me livrei desse vício, como você. Vou colocar sua foto ao lado do laptop, tocar os presentes que você me deu. Tomar um gole de conhaque.

Sim, eu sei, você não bebia e não iria gostar de me ver tomando algo tão forte. Mas, juro, é dos bons. Francês. Preciso alimentar a ansiedade que me consome, mas, ao mesmo tempo, me impulsiona. Você entende bem o que é isso. Por trás de sua serenidade habitava um vulcão.

Fecho os olhos. Estou em Crateús, sertão do Ceará. É dia 14 de março de 1969 e você estava nascendo. Filho de dona Sebastiana e seu Aderson, irmão de Júnior. Sinto o cheiro da fogueira de São João. Vejo você, criança, de short branco, camisa puída, pé no chão, correndo na rua de terra batida.

Fecho os olhos. Vejo dona Sebastiana se despedindo para tentar a vida em São Paulo. Vocês, pequenos, grudados na barra da tia. Fecho os olhos e lá estão os dois irmãos, viajando para São Paulo, ao encontro de dona Sebastiana: você com 4, Júnior com 5 anos. Aqui começaria sua jornada.

MENINO PRODÍGIO
Normalmente, depoimentos sobre pessoas públicas que morreram só trazem elogios. A morte nos faz esquecer os pecados do outro. No caso do jornalista Marco Uchôa, se ele tinha uma imperfeição, era justamente a obsessão pela perfeição. Se tinha um desequilíbrio, era não dosar na medida trabalho e vida.

Era um prodígio. Antes dos 30 anos, passara pela redação de dois grandes jornais e brilhava no Fantástico. Econômico nos elogios, Luiz Nascimento, diretor do programa, diz dele: “Era um profissional brilhante, com ótimo texto e extremamente ético”. “Tinha alma de repórter e era doce, sensível”, afirma o amigo Lourival Sant’Anna, repórter especial de O Estado de S. Paulo.

A mãe se envaidece: “Ele tinha uma estrela, mas se esforçou muito para chegar aonde chegou.” Como amiga e colega, devo acrescentar que só uma pessoa cativante como Marco seria capaz de promover manifestações de solidariedade como as que testemunhei na redação da TV Globo de São Paulo.

O poder de mobilizar as pessoas era um dom, como a vocação para a notícia. Quando chegou a São Paulo, foi com o irmão para a Casa da Criança, colégio interno na zona leste. A mãe não podia trabalhar e cuidar dos dois. No dia de visita, vestiam a melhor roupa e Júnior improvisava uma loção com pétalas de rosa para passar no caçula. “Ele sempre foi vaidoso”, diz o irmão, com ternura.

Antes de dormir, as crianças da Casa encostavam o ouvido no chão para ouvir a TV da sala, embaixo do quarto: “Eu preferia os filmes, mas Marco não perdia uma edição do Jornal Nacional”, conta Júnior.

A CARREIRA
Em 1989, ainda na faculdade, começou como rádio-escuta na Agência Folha. Era difícil para alguém da Agência escrever no jornal, mas Marco conseguiu e, persistente, chegou à editoria de Cidades. A jornalista Heloisa Helvécia, sua primeira chefe, conta que ele já era antenado nas questões do meio ambiente, sequer mencionadas nas redações da época: “Ele queria aprender.”

Um ano depois, ele dava mais um salto. Foi trabalhar como repórter de Cidades no jornal O Estado de S. Paulo, subordinado ao jornalista Roberto Gazzi. “Marco era eclético, mas tinha olhar especial para histórias humanas, de gente desamparada”, lembra Gazzi.

E os furos? No Estadão, foram muitos. Foi o primeiro repórter a denunciar a existência dos “pais de rua”, adultos que contratam crianças para mendigar nos sinais. Sua reportagem sobre o tráfico no morro Dona Marta, no Rio, rendeu o convite para o Fantástico. Luiz Nascimento leu a matéria e sentenciou: “Esse cara tem peito.” Marco aceitou. Arranjou óculos que não refletiam a luz e tratou de se adaptar ao veículo.

Tinha jogo de cintura, era gentil, espirituoso. Usou o senso de humor para fazer um traficante de armas falar ao programa. “Minha mulher não quer que eu abra o bico”, disse o traficante. Ele respondeu: “Você, um bandidão, vai obedecer à mulher?” Foi o que bastou.

O ADEUS
Meses antes de saber do câncer, Marco foi convidado por Denise Cunha, hoje chefe de produção dos jornais locais de São Paulo, para fazer um Globo Repórter sobre acidentes de trânsito. Até hoje, ela guarda os e-mails trocados com o amigo em sua longa licença médica:

“Adivinha o que sobra, neste momento, para este seu amigo… Aquilo que falta na sua vida… TEMPO! Ele mesmo! Assim, posso aprender coisas novas, como meditar; mandar torpedos e surpreender; treinar inglês em filmes sem legenda… E assim vai…”

Marco descobriu a doença logo após a exibição do Globo Repórter. Nos dois anos seguintes, reencontrou amigos, fez outros, ficou mais próximo da mulher e do filho. “Ele percebeu que a vida não é só trabalho”, diz Anna.

Fecho novamente meus olhos. Volto para aquela sexta-feira, quando você me chamou para ir ao hospital. Você estava na cama, sereno, e me disse que agora tinha mesmo de partir. Eu segurei sua mão e conversamos. Você me falou de sutileza e amizade. Eu te falei do quanto você era digno. Li para ti o cartão branco com a palavra “Amor”, assinado por todos os que estavam na redação naquele dia. E saí do quarto sem querer admitir que aquilo foi uma despedida. Agora, só te vejo em sonhos.

Um exemplo de caráter a ser seguido.

By Erika Yoshida

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